STF pretende acabar com o registro profissional dos artistas

Andrea Thomioka, parecerista da lei de Incentivo a Cultura do Estado de São Paulo diz “Falta reconhecimento que o artista é um profissional”.

Aos 3 anos de idade Andrea Thomioka começou a estudar dança. Aos 13, passou a ter aulas com a renomada professora Toshie Kobayashi  e então seus treinos foram focados com intuito de tornar-se uma profissional. Andrea com 20 anos foi a primeira bailarina brasileira a conquistar a medalha de ouro no 17th International Ballet Competition of Varna – Bulgaria em 1996, um prêmio disputado pelos melhores, a Copa do Mundo do Ballet. Ela integrou também a Cia. Portuguesa de Bailado Contemporâneo em Lisboa e o Balé da Cidade de São Paulo.

Além da carreira construída como bailarina clássica e contemporânea, Andrea é produtora executiva e participa ativamente do mundo político cultural. Participou como delegada de São Paulo da pré conferencia de cultura em Brasília para traçar diretrizes de planos municipais e estaduais de cultura que tornaram-se leis. Ela também foi Curadora do Centro Cultural de São Paulo (SMC), de 2015 a 2017. Hoje, com 42 anos é parecerista da Comissão de Avaliação de Projetos (CAP) , ProAC e ICMS lei de Incentivo a Cultura do Estado de São Paulo, diretora executiva e professora da Artisan Ballet . A seguir Andrea Thomioka fala sobre sua carreira, a decisão do STF e seus planos para mudar o futuro da dança com o método UPGRADE.BR.

Quando você decidiu que seria uma profissional da dança? Desde sempre, larguei três faculdades para isso. Antes até de convencer os meus pais, eu já sabia desde criança que eu ia ser uma bailarina. Se eu fosse mais alguma coisa, talvez, mas bailarina com certeza.

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E quando começou a encarar a dança como profissão? Meu DRT (Registro profissional concebido pela Delegacia Regional do trabalho) é de 1995. Demorei um tempo ainda pra conseguir viver de dança, mas eu já me dedicava exclusivamente desde os 13 e dançando como convidada desde os 17 anos. Eu tirei o registro profissional na realidade para ir ao concurso do Japão que só podia ir profissionais, porque é um festival internacional, só de Grand Pas de Deux (É um dueto de dança em que dois bailarinos executam passos de ballet juntos) que pede o registro e quem fazia a seleção antes de ir era o Conselho Brasileiro de Dança no Rio de Janeiro responsável por levar a delegação brasileira.

Você acredita que os artistas são mais valorizados fora do nosso país? Não é que são valorizados. Eu vejo que lá a arte e a função de artista são consideradas como profissão, mas é uma questão de educação, não é nem um problema de cultura. São países que consideram o artista como qualquer outra profissão, existem faculdades, as nossas faculdades no Brasil são muito recentes se for analisar. Mas têm países piores e países melhores, nós não somos os piores do mundo. Como isso está ligado a educação, consequentemente, a cultura do país e como o nosso tem um problema muito sério com ambos os temas, acho que já responde a pergunta. Não acho que eles são mais valorizados como artistas, ao contrário, o artista é tratado como qualquer profissional tão importante quanto.

Sobre a votação no STF com o intuito de acabar com o registro profissional dos artistas qual sua opinião? (Risos) Eu ainda não consegui consolidar as informações precisas da onde surgiu isso. Então o que eu tenho de informação, não oficial, é que isso parte de problemas que temos de pessoas vendendo DRTs indevidamente. Primeiro que, é um absurdo acabar com DRT de artista, só que precisa também entender porque nada vem à toa, infelizmente, como nosso país é muito grande a fiscalização é muito precária.

Não adianta você ter lei se não tem fiscalização para o cumprimento dessas leis,  fica muito difícil. E como todo mundo sabe disso, realmente existem pessoas que se aproveitam da falta de fiscalização e acabam deturpando a lei. No caso do DRT eu acredito que tenha sido vendido muito DRT indevidamente, assim como a gente sabe que existe muito registro de médico que foi vendido indevidamente, têm muitos advogados que compraram o registro, mas hoje o conselho esta acima de muitas outras constituições e são conselhos, como a Ordem dos Advogados, que lutam pela própria integridade e pela dignidade do que eles representam.

Mas você acredita que abolir a necessidade do profissional de arte ter o registro profissional seja uma solução? Não, assim como tudo, você quer tampar o buraco de um problema dando um paliativo, é inadmissível. É muito retrógrado. Depois da última década, o que a gente conquistou em termos de cultura, como política cultural. Temos agora desde a pré conferencia de cultura, todos os mecanismos, por exemplo, o departamento de cultura é só de cultura, não é turismo educação, turismo e lazer. Nós somos um país em desenvolvimento, a cultura faz parte do desenvolvimento, infelizmente esse é um problema de cultura mesmo, mas é que é mais fácil jogar um paliativo na cultura do que resolver um problema no caso de fiscalização. De quem é a responsabilidade da fiscalização? Os sindicatos representam e tem o poder de representar, mas se eles também não estão sendo fiscalizados de quem é a responsabilidade? Não é dos artistas. Porque provavelmente quem precisou burlar a lei para tirar um DRT de artista não foi um artista afinal um artista tiraria. É por isso que eu falo não é valorização é realmente tratar uma profissão como a outra. Falta o reconhecimento que o artista é uma profissão ponto. Falta reconhecer mas quando você fala reconhecer o povo acha que a gente quer luzes, mas não, é mais simples, direitos. Porque a gente já sofre com milhões de coisas, por exemplo, não tem concurso público para artista, são pouquíssimos no Brasil que exercem a função devidamente com registro CLT ou através de concurso público, são minorias.

E agora a gente sofre até com isso, perder o registro? É difícil. E Fora que isso em termos de mercado complica. Não que o DRT garanta a excelência na qualidade e a competência profissional, mas querendo ou não é uma seleção, uma triagem. Porque por essa falta de cultura todo mundo acha que artista é qualquer pessoa que nasce com um talento e exerce, não, artista profissional é uma pessoa que tem uma formação técnica, quer seja na universidade ou não, ninguém vira bailarino se não tem uma formação técnica, a pessoa pode até dançar, livre, sem formação técnica, pode até virar professor dar aula em academias menores, só que daí para ela ser um bailarino profissional é muito diferente.  Um bailarino hoje para tirar o DRT precisa comprovar formação e ai quando você tira justamente o DRT você equipara, todo mundo fica de igual pra igual.

 

Sobre a sua carreira o porquê de ir para a parte política cultural? Eu sempre quis ser bailarina, mas eu sempre tive uma personalidade diferente de uma pessoa que poderia ser só bailarina. Então desde muito cedo eu fui engajada com a minha profissão, em todos os aspectos, não só na questão da formação e da qualidade da formação técnica nas escolas livres, a quebra de um preconceito que aparece um pouco na década de 90 entre as pessoas da dança das universidades e da dança do corpo e da pratica. Considero-me uma pessoa muito mediadora nesse assunto, porque sou de um lugar  mas sou aceita no outro também.

Ainda dançando eu resolvi ser produtora então eu tenho esse lugar que eu não acredito que a arte ou especificamente a dança não seja também burocrática e administrativa. Não tenho o menor preconceito em falar que a partir do momento em que eu sou uma artista, sou uma diretora de companhia, o que a gente tem e o que a gente produz é um produto e isso no mundo capitalista tem que ser vendido, esta bem longe de ser um entretenimento e algo consumista no sentido pejorativo mas ele precisa viver, os bailarinos precisam comer, a companhia precisa de dinheiro para produzir e pra isso precisa aprender a fazer planilha orçamentária (risos) precisa saber escrever um projeto.

É toda uma parte que eu sentia que na dança era muito defasado, mas que graças a Deus nessa ultima década, graças a vários prêmios e leis de incentivo que apareceram e que a dança foi inserida, existe esse outro viés que não necessariamente é feito por pessoas da dança mas eu acho muito conveniente quando é.

Hoje eu sou professora, eu não só dou aula, sou diretora da Artisan Ballet e ainda estou acabando de formatar o UPGRADE. BR que é uma metodologia de ensino de dança clássica brasileira.

Você é uma das desenvolvedoras do método brasileiro de ballet. Qual a proposta e o objetivo desse método? Esse método vem de encontro a muitos questionamentos que eu tive durante a minha formação. Eu sou super a favor de todas as metodologias, mas eu não acredito que todas as metodologias sejam a favor dos nossos corpos. Eu sou totalmente contra aquela visão elitista que o ballet clássico é só para alguns, eu cresci com essa mentalidade mas eu não acredito.

Eu acredito que uma carreira depende de muitos fatores talento, físico e competência técnica não é só o que garante uma carreira, assim como o não físico pode ser que seja garantia também de uma carreira. O UPGRADE vem com uma cara um pouco mais brasileira, porque nós somos múltiplos em todos os aspectos inclusive culturais.

Você pode estar em uma companhia com 12 bailarinos e esses 12 vêm de culturas, educações, sensos completamente diferentes, é totalmente diferente de uma realidade de onde vem a dança européia que é todo mundo igual, todo mundo tem a mesma educação, todo mundo tem o mesmo acesso a informação, aqui no Brasil não é assim.

E assim como não é nesses aspectos que transformam as pessoas em um ser humano, eu não acredito que a técnica tenha que ser formatada nesses moldes para todos. O UPGRADE de todos os estudos, óbvio tem a questão biomecânica que a gente lida com a genética brasileira que é múltipla, a gente precisa saber pelo menos mil maneiras de ensinar a mesma coisa. O que a gente vai é mais em relação ao foco, objetivo e o porquê, mas completamente aberto na maneira de aplicar, essa eu acho que é a grande diferença.

Então o UPGRADE.BR vem disso e vem também como uma possibilidade de dança clássica para todos, porque dentro dessa realidade a gente sem querer acabou  descobrindo que o UPGRADE agrega sênior, uma pessoa de 60 anos que nunca fez ballet, ela pode fazer, então essa coisa de ballet clássico é só pra alguns, só pra alguns profissionalmente assim como qualquer outra profissão. Todo mundo pode jogar futebol ser atacante, artilheiro, goleiro é só pra alguns mas todo mundo pode jogar futebol.  Ballet clássico é pra todo mundo se vai ser bailarina de companhia, solista ou primeira bailarina de companhia clássica, ai é outra coisa.

 

Thais Rabelo Felipe.

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